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Campinas,  de 2017

Revelando a sala escura

 

Deficiente visual produz fotografia no CIS-Guanabara

 

          Adriano Melo Rita nasceu cego. Ele tenta imaginar como são as cores. Quando arrisca produzir uma foto procura fazer primeiro um reconhecimento tátil do objeto fotografado ou se vale da descrição feita por terceiros, antecipando a ele o que ele vai fotografar. Luzinete Nunes de Alencar, 46 anos, perdeu a visão aos 30. Fotografou muito o filho mais velho, hoje com 25 anos. O mais novo, de oito anos, ‘conhece’ pelo que falam sobre ele e pelo toque, quando acaricia o garoto. Elizeu José Araújo Ribeiro perdeu a visão há 14 anos num acidente de carro. Preserva imagens na lembrança. Hoje, vivenciando a completa escuridão, faz dos ouvidos seus olhos. Ele se guia pelo ‘barulho’. Arrisca afirmar que se tiver a missão de fotografar alguém falando ao microfone certamente fotografará a caixa de som.

Scarpinetti fala sobre os princípios básicos da fotografia (Foto: Sérgio de Souza Silva)


          São histórias de vida emocionantes que se cruzam a partir de uma nova experiência. Um universo que ganhou no último dia 20 setembro no CIS-Guanabara contornos diferentes quando eles, juntamente com outros integrantes do Centro Cultural Louis Braille, participaram da Oficina de Fotografia para Deficientes Visuais. Entre atividades teóricas e práticas, muitos manusearam pela primeira vez uma câmara fotográfica analógica, rebobinaram filmes, ajustaram fotômetro e acionaram o obturador. Fotografaram e se deixaram fotografar. Vibraram muito ao som de cada acionamento do disparador. “O simples apertar do botão da câmera, mesmo sabendo que jamais verão as imagens, seja na condição de fotógrafos, seja na condição de modelos, permitiu a eles uma participação num processo de produção jamais vivenciado”, afirma o jornalista e fotógrafo da Secretaria de Comunicação da Unicamp (Secom), Antonio Scarpinetti, responsável pela atividade. “Sentiram-se participantes de um fazer fotográfico que elevou a autoestima por assumirem o lugar de responsáveis pela eternização de uma imagem e isso para eles é o que basta”.

Scarpinetti ensina aluno manusear câmera fotográfica (Foto: Sérgio de Souza Silva)

 
          A oficina foi dividida em três momentos. Inicialmente os onze participantes se apresentaram, falaram da experiência de viverem na escuridão total e com muito bom humor falaram da expectativa do desafio da produção fotográfica que estava por vir. Luzinete, enquanto manuseava a câmera disse: “fazer isso [a foto] é interessante, mas o que vai sair só Deus sabe.” Para Scarpinetti, os depoimentos são significativos e mostram como as fotografias ficaram marcadas na vida daquelas pessoas que perderam a visão depois de adultos. “Interessante como elas falam de momentos do cotidiano familiar a partir da lembrança de uma fotografia que ficou fixada na memória. Imagens simples como a de um casamento ou de uma atividade escolar do filho permitem recordar aquele instante, possibilitam reviver um filme em que foram personagens”.

Fotógrafa e fotografada diante de uma nova situação (Foto: Sérgio de Souza Silva)

 

          Após a etapa de depoimentos, Scarpinetti projetou e leu frases de fotógrafos e de curadores de exposições com larga vivência no universo da fotografia produzida por deficientes visuais. Falou de filmes, como o documentário Luz Escura, A Arte dos Fotógrafos Cegos, cujos protagonistas são fotógrafos que não enxergam. Numa tentativa clara de elevar a autoestima dos participantes, valeu-se de pensamentos do fotógrafo e curador norte-americano, Douglas McCulloh, quando se refere à produção de alguns fotógrafos cegos. Sobre Peter Eckert ele afirma: “É um dos fotógrafos mais puros, porque ele monta suas fotos cuidadosamente, peça por peça, como uma construção metal, primeiro. E depois, pode levar meses até que ele tenha uma visão completa em sua mente. Então, como ele diz, ele passa uma foto sob a porta de seu mundo de escuridão para o nosso mundo visual.” A proposta, segundo o responsável pela oficina, foi mostrar que eles podem, por meio da fotografia, nos revelar como é viver uma realidade com absoluta falta de luz.

Scarpinetti auxilia aluna no enquadramento da imagem (Foto: Sérgio de Souza Silva)


          O terceiro momento da oficina foi a produção fotográfica. A câmera foi instalada num tripé e, com a ajuda do fotógrafo, o deficiente visual manuseou o equipamento. Na outra ponta estava o modelo a ser fotografado, outro deficiente, que diante da objetiva, muitas vezes sorrindo, fazia poses. “O barulho do obturador, o diálogo muitas vezes jocoso entre eles, foi muito especial. A alegria que expressavam ao participar daquele momento, ainda que não vissem nada após a produção, foi supreendente. A partir do momento em que colocam a mão na máquina eles se transformam, sabem que têm em mãos um instrumento poderoso e isso valoriza a sua participação nesse processo”, avalia Scarpinetti.

‘Modelo’ sorri para fotógrafa que faz seu primeiro registro  (Foto: Sérgio de Souza Silva)


          A oficina realizada no CIS-Guanabara permitiu ao fotógrafo da Secom-Unicamp vivenciar uma situação que até então conhecida apenas na teoria impressa nas páginas dos livros. Ele se vale da reflexão do fotógrafo esloveno Evgen Bavcar, que ficou cego aos 12 anos após dois acidentes. Doutor em História, Filosofia e Estética pela Universidade de Sorbonne, na França, Bavcar, ainda na época da fotografia analógica, afirmou: “Todos os fotógrafos precisam de um quarto escuro, devem revelar seus filmes em uma sala escura, e toda a minha vida é uma sala escura, eu sou uma sala escura, usando uma máquina por onde entra a luz. Por que não poderia fazer fotos? Isso não é uma provocação e sim um desejo interior de fazer imagens.” Segundo Scarpinetti, pessoas, como as que participaram da oficina, devem, sim, ter oportunidade de se expressarem por meio da fotografia. Devem revelar a ‘sala escura’ onde vivem.”

Aluno sorri durante primeiro ‘ensaio fotográfico’ feito por colega cego (Foto: Sérgio de Souza Silva)


          Essa experiência, coordenada pela equipe de projetos do CIS-Guanabara em conjunto com Rotary Clube Norte e Centro Cultural Louis Braille, por ora é vista como um piloto. A ideia, segundo o sociólogo e diretor do CIS-Guanabara, Marcelo Rocco, é, com base em trabalhos semelhantes realizados por outros órgãos instituições, aplicar algo semelhante de maneira sistematizada a partir do próximo ano. “Fundamentalmente, as artes tem o propósito de despertar os sentidos. A experiência provocativa dessa oficina vai muito além da experimentação de um enquadramento ou clique, ela consiste em revelar que tudo é possível. O projeto “Ampliando os Sentidos” prevê ações dessa natureza, e o oferecimento dessa atividade está em consonância com os propósitos dessa casa de cultura”, afirma.
 

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