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Campinas,  de 2018

 

Reminiscências

Vivência com alunos do UniversIDADE remexe

baú de fotografias no CIS-Guanabara

| Texto: AMARILDO CARNICEL | PROEC | ESPECIAL PARA O JU     | Fotos: DIVULÇÃO | REPRODUÇÃO

 

O historiador por vocação, Wagner Paulo dos Santos: palestra focalizou

 o antagonismo das praças campineiras Largo do Rosário e Largo do Pará

Quando a comerciária aposentada Eleni Zilda Giraud Galani viu a foto da extinta doceria Términus, de Campinas, projetada na parede da sala multiuso 1 do CIS-Guanabara, não se conteve. Em tom claramente nostálgico, falou dos tempos em que saía da também extinta Lojas Sears, no centro da cidade, e se dirigia para Términus onde saboreava um cremoso chocolate quente. “Eles nos serviam em bules de prata e em xícaras de porcelana fina. E os bolos então? Um melhor que outro”. Foi nesse cenário de boas lembranças que transcorreu a vivência “Re-tratos, a Cidade que Mora em Mim – Memória, História e Significados”, ministrada dentro do Programa UniversIDADE, pelo engenheiro civil aposentado e estudioso da história de Campinas, Wagner Paulo dos Santos e pela psicóloga e produtora cultural do CIS-Guanabara, Flávia Moraes Salles.

“A foto me fez lembrar o gosto daquele delicioso chocolate engrossado com maisena nas tardes de frio. Senti o cheiro, o sabor dos doces e, o melhor, a lembrança da liberdade de falar de coisas que não podíamos tocar no ambiente de trabalho”, recorda a aluna que no próximo dia 22 de maio completa 70 anos.

Sobrado do Villaça ou Sobrado Maldito (à direita): palco de mortes misteriosas

Dona Eleni e os outros 14 alunos do programa UniversIDADE que participaram dessa vivência exibiram fotos antigas e alguns, de modo compulsivo, desataram a falar sobre recordações a partir daquilo que estava restrito ao quadrilátero da imagem. Um recorte que, na verdade, permitia passar um filme na cabeça de cada depoente. A partir da foto de uma rua, cenário de brincadeiras de infância, surgia a lembrança das músicas tocadas na vitrola na casa do vizinho, das prosas no ponto de ônibus e das voltas de bicicleta ao redor do quarteirão. Cheiro de mato, de frutas, ruas tranquilas e quintais bucólicos compunham as temáticas fotográficas trazidas pelos alunos que cuidadosamente, como guardiões da memória, selecionaram especialmente para aquele momento.

O professor de matemática aposentado, Sebastião Antônio José Filho, 74 anos, sentiu um nó na garganta quando se lembrou das pescarias nos rios Turvo e Grande na região de Palestina, cidade onde nasceu. Embora vivesse na área urbana, era na zona rural que levantava um dinheirinho pra satisfazer seu gosto pessoal. “Minha primeira bicicleta consegui com trabalho nas lavouras de algodão”, lembra orgulhoso. No entanto, as memórias do professor Sebastião não se limitaram ao período de infância. Fez questão de falar do tempo em que fazia faculdade em Rio Claro, por volta de 1965. “Tem melhor época na vida de um jovem?”, questiona, embora tenha a resposta com muita clareza. “Lembro-me com muita saudade da boate Panqueca, perto da faculdade. Tudo acontecia lá. Muitas festas, namoricos... era o ponto de encontro dos alunos de todos os cursos”, afirma.

A Doceria Términus, por volta de 1975:

 chocolate quente em xícaras de porcelana

 

“Os comentários de dona Eleni, um momento vivido em meados dos anos 70 do século passado, do professor Sebastião sobre infância e juventude e dos demais alunos que fizeram uma viagem ao passado vão ao encontro da proposta dessa vivência, ou seja, despertar a memória que está dentro da gente. São fotos impregnadas de significado afetivo que acordam o valor pessoal adormecido”, observa a psicóloga Flávia. Segundo ela, a proposta dessa vivência foi identificar, junto aos participantes, fragmentos da cidade que representam esses alunos. “Qual é o canto da minha cidade em que eu mais me identifico? Qual é o cenário de minha infância ou juventude que mais me representa?”. Com questões dessa natureza trazidas pelos alunos, a psicóloga promoveu um exercício de identificação do significado desse recorte afetivo para essas pessoas. A partir do uso de fotografias antigas, seja do álbum de família de cada um, seja do acervo escolhido pela coordenação do trabalho, os alunos claramente emocionados passearam pela imagem, relembraram e ressignificaram histórias, sempre com os olhos no passado e a cabeça no presente.  

Dona Eleni Galani, aluna do UniversIDADE:

saudades de bons momentos na Doceria Términus

História por vocação

Documento, registro, história, memória... São muitas as nomenclaturas aplicadas à fotografia como instrumento de lembrança e registro de um recorte no tempo e no espaço. Desde a sua invenção, em torno de 1830, a fotografia vem sendo utilizada e superficialmente inserida na cultura popular como atestado de um fato, prova incontestável da verdade. Para o historiador, Boris Kossoy, muito longe de ser verdade absoluta, a fotografia constitui-se uma representação da realidade, seja do ponto de vista de quem a produz, seja da perspectiva de quem é fotografado. Independentemente das diferentes linhas de pensamento sobre a finalidade da imagem fixa, o que não se discute é que as fotografias apresentadas na vivência “Re-tratos” contaram boas histórias. Os registros fotográficos permitiram o descongelamento de momentos que começaram a aflorar durante a narração da imagem.

Essa foi também a linha de trabalho do engenheiro civil de formação e historiador por vocação Wagner Paulo dos Santos que durante os dois encontros realizados nos dias 6 e 13 de abril no CIS-Guanabara assumiu parte da vivência “Re-tratos”. No início, num exercício em que estimulava os alunos a passearem pelas fotos e identificarem os locais, o engenheiro civil focalizou o antagonismo das praças Largo do Rosário e Largo do Pará. “A primeira era a área nobre, localizada no Centro da cidade, próxima ao teatro, igreja, cafés e livrarias, local onde circulava a nobreza campineira. A segunda, embora estivesse a menos de um quilômetro do local, era considerada arrabalde”. Tanto é que, segundo ele, os elementos ali instalados eram refugos de outros pontos das cidades. O coreto e o chafariz, por exemplo, foram, inicialmente, construídos em outras praças. “É por isso que eu sempre que me remeto ao Largo do Pará, digo largo da sucata. O que fazer com as sobras das reformas de outras praças? O que fazer com chafariz retirado do Largo do Rosário? E com o coreto que estava na Praça Bento Quirino? Manda pro Largo do Pará”, ilustra Wagner.

Seu Sebastião Antônio José Filho: histórias que remetem

 ao período de infância em Palestina e de juventude em Rio Claro

 

Os alunos presentes não imaginavam que a Rua Marechal Deodoro um dia fora conhecida como Rua do Picador. A razão, segundo Wagner, é simples. Morava naquela rua o senhor Salvador Cerqueira, um adestrador de cavalos que tinha em sua casa um picadeiro. Os animais chucros eram entregues para a realização do trabalho, que se tornou atração. “De maneira esperta, ele começou a fazer o trabalho aos domingos diante de uma plateia que pagava ingresso. Daí o nome, Rua do Picador”, afirma. Os alunos também não sabiam que a Avenida Senador Saraiva tem nos registros populares o nome de Rua Alegre. “É que ali estavam inicialmente instaladas as casas de prostituição da cidade. A palavra alegre era uma alusão às festas que ocorriam com frequência no local”, afirma. Ainda na linha das denominações populares, Wagner se lembra do Sobrado do Villaça ou ‘sobrado maldito’, edificação construída próxima ao Teatro São Carlos, esquina das Ruas José Paulino com Treze de Maio, no centro da cidade. O local foi cenário de mortes misteriosas. Além do proprietário que foi assassinado no local, há relatos de criadas negras que teriam, ‘acidentalmente’, caído no poço. “Após pesquisas feitas em livros de historiadores de Campinas, verifiquei que algumas negras, grávidas dos patrões, foram atiradas no poço”, afirma o engenheiro, justificando que não há na historiografia campineira registro do nome do primeiro dono do sobrado.  

A psicóloga e agente cultural do CIS-Guanabara,

Flávia Moraes Salles: fotografias que afloram a memória adormecida

 

Wagner é autor dos livros Escola Normal, a Andorinha do Amor (2003), lançado em comemoração ao centenário da Escola Normal de Campinas, e Minha Admirável Comunista (2001) em homenagem à primeira vereadora de Campinas, Vera Pinto Telles, em 1948. Seu interesse pela história de Campinas surgiu de maneira muito natural, quando buscava informações sobre suas origens. Neto de portugueses, o engenheiro queria saber quando e como chegaram seus avós ao Brasil. Da história pessoal para a história de Campinas, foi um passo. Interessou-se pelos nomes que davam nomes às ruas, às praças e viu no acervo fotográfico do Centro de Ciências, Letras e Artes uma fonte inesgotável de informações sobre a Campinas do início do século passado. “Meu happy hour durante anos foi remexendo arquivos do Centro de Ciências”, lembra com orgulho.

Aluno de instituições públicas do ensino fundamental até a graduação em Engenharia Civil feita na Unicamp, Wagner vê nessas palestras uma forma de retribuir à sociedade um pouco desse conhecimento acumulado. “Toda a minha educação foi realizada em escolas estaduais, custeadas com dinheiro do contribuinte. Chegou a hora de eu devolver um pouco daquilo que recebi”, afirma.

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Aspectos da oficina oferecida a alunos do Programa UniversIDADE no CIS-Guanabara

Dona Eleni, aluna do Projeto UniversIDADE desde o início do ano, não poupou elogios ao programa. “Vale muito a pena pegar três ônibus para participar dessas vivências. A gente aprende muito e se ocupa com atividades que dão prazer.” O professor Sebastião, também aluno desde o início do ano, resumiu sua satisfação com uma frase. “A vivência de hoje, para mim, foi um renascimento”, afirmou. “Esse tipo de depoimento confirma os ‘re-tratos’ que todos podemos fazer com os monumentos esquecidos que guardamos dentro de nós”, conclui a psicóloga Flávia. O Programa UniversIDADE, da Unicamp, visa proporcionar às pessoas das comunidades interna e externa, acima de 50 anos, condições de mantê-las ativas tanto física quanto mentalmente, além de estimular e capacitar seus integrantes por meio de atividades interdisciplinares que buscam fomentar os diálogos relacionados à longevidade e qualidade de vida.

 

 

 

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